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O terrível perigo de ser gay: existir sem pedir desculpas

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A homossexualidade não é doença, escolha ou resultado de influência; o verdadeiro medo nasce do preconceito alimentado por desinformação e discursos religiosos de condenação

 

Há quem trate a homossexualidade como uma ameaça tão poderosa que bastaria ver dois homens de mãos dadas para colocar em risco a família, a civilização ocidental e, dependendo do pregador, até a rotação da Terra.

O curioso é que os homossexuais continuam sendo uma minoria. Mesmo assim, algumas pessoas parecem acreditar que ser gay é contagioso: começa com uma novela, passa por uma bandeira colorida e termina com toda a vizinhança mudando de orientação sexual. Se isso fosse verdade, séculos de filmes, livros, casamentos, sermões e propagandas heterossexuais já teriam eliminado completamente a homossexualidade do planeta.

Não eliminaram. Nunca eliminarão.

Ninguém se torna gay porque viu um beijo, recebeu educação sexual, conviveu com pessoas LGBT ou foi criado por dois pais ou duas mães. Da mesma maneira, nenhum homossexual se transforma em heterossexual por frequentar cultos, casar-se com alguém do sexo oposto, ter filhos ou passar anos implorando a Deus para acordar diferente.

Orientação sexual não é figurino que se troca de acordo com o ambiente. Também não é decisão tomada numa manhã de terça-feira: “Hoje acho que vou escolher uma vida com maior risco de rejeição familiar, discriminação, violência e condenação religiosa”.

Seria uma escolha bastante estranha.

A medicina já encerrou essa discussão

A homossexualidade não é considerada doença ou transtorno mental. A Organização Mundial da Saúde retirou-a da classificação internacional de doenças em 1990. A própria CID estabelece que a orientação sexual, por si só, não pode ser considerada um transtorno.

A Associação Americana de Psicologia também reconhece a homossexualidade e a bissexualidade como manifestações normais da sexualidade humana. As evidências disponíveis mostram que as chamadas “terapias de conversão” não são eficazes para mudar a orientação sexual e podem provocar danos, como culpa, ansiedade, depressão, baixa autoestima e pensamentos suicidas. Organização Mundial da Saúde e Associação Americana de Psicologia.

No Brasil, a Resolução nº 1/1999 do Conselho Federal de Psicologia determina que psicólogos não tratem a homossexualidade como patologia nem ofereçam promessas de “cura” ou reversão sexual. Isso não impede o atendimento psicológico. Pelo contrário: a pessoa pode e deve receber ajuda para enfrentar conflitos, rejeição, violência, culpa e sofrimento. O que o profissional não pode fazer é fingir que existe uma doença para depois vender a cura. Conselho Federal de Psicologia.

A ciência não afirma que exista um único “gene gay” ou uma causa isolada. A orientação sexual parece resultar de uma combinação complexa de fatores biológicos e do desenvolvimento humano. O que está estabelecido é que ela não pode ser voluntariamente escolhida ou alterada por oração, disciplina, casamento, medicação ou psicoterapia.

Também é importante não confundir orientação sexual com identidade de gênero. Ser gay, lésbica ou bissexual diz respeito à atração afetiva e sexual. Ser uma pessoa trans, cisgênero ou não binária diz respeito à identidade de gênero. São dimensões diferentes da experiência humana.

Quando a fé é transformada em instrumento de medo

A religião pode oferecer acolhimento, sentido, comunidade e esperança. Existem igrejas, grupos religiosos e lideranças que recebem pessoas LGBT com respeito. O problema começa quando determinadas instituições utilizam a fé para produzir vergonha, controle e terror psicológico.

Nesse ambiente, a criança ou o adolescente aprende que seus primeiros sentimentos representam uma abominação. O jovem é informado de que decepcionará a família, destruirá a própria vida e será castigado eternamente. O adulto passa a acreditar que qualquer sofrimento — desemprego, doença, solidão ou dificuldade financeira — é punição por sua orientação sexual.

É uma estratégia muito eficiente: primeiro cria-se o medo, depois se oferece a libertação. Se a promessa não funcionar, a responsabilidade recai sobre a vítima. Faltou fé, oração, jejum, oferta, obediência ou “verdadeiro arrependimento”. A instituição nunca erra; quem sofre é que aparentemente não rezou com força suficiente.

Algumas pessoas passam anos tentando expulsar de si aquilo que nunca foi uma doença. Casam-se para satisfazer a família ou a comunidade religiosa, envolvem outra pessoa numa relação construída sobre ocultação e chegam a ter filhos acreditando que a paternidade ou a maternidade modificará sua orientação.

Não modifica.

Podem reprimir comportamentos, esconder sentimentos e vigiar cada gesto. Podem aprender a representar socialmente um personagem heterossexual. Mas representação não é transformação.

Castidade não altera orientação sexual

Uma pessoa homossexual pode escolher a castidade por razões religiosas ou pessoais, assim como uma pessoa heterossexual também pode fazê-lo. Essa decisão diz respeito ao comportamento, não à orientação.

Quem vive em castidade deixa de praticar atos sexuais, mas não necessariamente deixa de sentir atração, afeto ou desejo. Um padre heterossexual não se transforma em assexual ao assumir o celibato. Pelo mesmo motivo, um gay celibatário não se torna heterossexual.

Essa escolha somente pode ser considerada livre quando não nasce de ameaça, chantagem, expulsão familiar ou pavor do inferno. E mesmo quando é voluntária, pode ter um preço emocional elevado. A pessoa continuará precisando de afeto, intimidade, pertencimento e relações humanas significativas.

O sofrimento frequentemente associado à homossexualidade não é causado pela orientação em si, mas pelo preconceito, pela rejeição e pela obrigação de esconder quem se é. A OMS alerta que estigma e discriminação afastam pessoas LGBT dos serviços de saúde e prejudicam seu bem-estar físico e emocional. Organização Mundial da Saúde.

Afinal, quem deveria ter medo?

Talvez seja hora de inverter a pergunta. Em vez de perguntar por que alguém tem medo de ser gay, deveríamos perguntar quem ensinou esse medo — e quem lucra emocional, política ou financeiramente com ele.

A homossexualidade não destrói famílias. A rejeição destrói.

A homossexualidade não leva jovens ao desespero. A humilhação e o abandono levam.

A homossexualidade não precisa de cura. O preconceito, sim, precisa ser enfrentado.

A pessoa pode esconder sua orientação durante décadas. Pode casar-se, manter uma aparência social impecável e jamais pronunciar a palavra “gay”. Pode até morrer levando o segredo consigo. Nada disso significa que tenha mudado; significa apenas que aprendeu a sobreviver sem viver plenamente.

No fim, o tão anunciado “perigo de ser gay” resume-se a uma possibilidade realmente assustadora para os intolerantes: a de uma pessoa compreender quem é, deixar de sentir vergonha e descobrir que não precisa da autorização deles para existir.

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