Sistema de pagamentos instantâneos foi concebido pelo Banco Central ao longo de vários anos e hoje é alvo de disputa política sobre os créditos por sua implementação
O Pix, sistema de pagamentos instantâneos que revolucionou as transações financeiras no Brasil, voltou ao centro das discussões políticas após declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre a origem da ferramenta. Enquanto Lula afirma que o Pix pertence ao povo brasileiro, Flávio atribui sua criação ao governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, reacendendo um debate que acompanha o sistema desde sua implantação.
Embora tenha sido oficialmente lançado em novembro de 2020, durante a gestão Bolsonaro, o desenvolvimento do Pix começou anos antes, como parte de um amplo projeto conduzido pelo Banco Central para modernizar o sistema financeiro nacional.
Projeto começou antes do lançamento
Os estudos para criação de um sistema nacional de pagamentos instantâneos remontam a 2014, quando o Banco Central iniciou análises para substituir as limitações das tradicionais TEDs e DOCs, que funcionavam apenas em dias úteis e, em muitos casos, mediante cobrança de tarifas.
A proposta ganhou força em 2016 com a Agenda BC+, programa de modernização do sistema financeiro brasileiro. Dois anos depois, em maio de 2018, foi criado oficialmente o Grupo de Trabalho de Pagamentos Instantâneos, responsável por estruturar a futura plataforma.
O projeto reuniu cerca de 130 participantes, entre bancos, cooperativas de crédito, fintechs, empresas de tecnologia, marketplaces, associações do setor financeiro e representantes do poder público. A missão era desenvolver um sistema capaz de realizar transferências em poucos segundos, funcionando 24 horas por dia, sete dias por semana.
No fim de 2018, o Banco Central assumiu oficialmente a coordenação da iniciativa, concluindo que somente uma infraestrutura pública poderia garantir interoperabilidade entre todas as instituições financeiras do país.
Desenvolvimento foi concluído durante o governo Bolsonaro
A fase de implementação tecnológica ocorreu ao longo de 2019 e 2020. Em fevereiro de 2020, o Banco Central apresentou oficialmente a marca Pix, cujo nome faz referência às palavras “pixel”, “tecnologia” e “transação”.
O cadastramento das chaves começou em outubro daquele ano. Após um período de operação restrita, o sistema foi disponibilizado para toda a população em 16 de novembro de 2020.
Desde então, o Pix se consolidou como o principal meio eletrônico de pagamento utilizado pelos brasileiros. Atualmente, mais de 170 milhões de pessoas físicas utilizam o sistema, responsável por centenas de milhões de transações diárias e pela movimentação de trilhões de reais todos os meses.
Debate político ganha novo capítulo
A discussão sobre quem deve receber os créditos pela criação do Pix ganhou força após o sistema passar a integrar uma investigação comercial aberta pelo governo dos Estados Unidos, que questiona se políticas públicas brasileiras favoreceriam a plataforma em detrimento de concorrentes privados.
Durante um evento em Goiás, o presidente Lula exibiu um cartaz com a frase “O Pix é do Brasil”, destacando o caráter público da ferramenta. Em resposta, Flávio Bolsonaro afirmou que o sistema também seria “do Bolsonaro”, argumentando que sua implantação ocorreu durante aquele governo.
Especialistas ouvidos em audiência promovida pelas autoridades norte-americanas defenderam o modelo brasileiro, afirmando que o Pix aumentou a concorrência, reduziu custos para consumidores e empresas e ampliou as oportunidades de inovação no mercado financeiro.
Disputa judicial também envolve autoria
Além da controvérsia política, a criação do Pix também é tema de uma ação judicial movida pela professora e empreendedora Anette Vernaschi Toppan contra o Banco Central.
Ela sustenta que desenvolveu, anos antes da criação do sistema, uma tecnologia voltada a pagamentos por telefone celular e afirma que o projeto teria servido de base para o desenvolvimento do Pix. Na ação, pede indenização por suposta utilização indevida de propriedade intelectual, além do pagamento de royalties.
O Banco Central nega qualquer relação entre o projeto apresentado pela autora e o desenvolvimento do Pix. Segundo a instituição, o sistema foi resultado de um longo processo técnico e regulatório conduzido por equipes próprias, inspirado em experiências internacionais de pagamentos instantâneos e desenvolvido de forma independente.
O processo segue em tramitação na Justiça Federal, sem decisão definitiva sobre o mérito da ação.
Um projeto construído ao longo de diferentes governos
Independentemente da disputa política e judicial, a cronologia oficial mostra que o Pix foi fruto de um projeto institucional iniciado ainda no governo Michel Temer, desenvolvido tecnicamente ao longo dos anos seguintes pelo Banco Central e lançado durante o governo Jair Bolsonaro. Desde sua implantação, o sistema tornou-se uma das maiores inovações do sistema financeiro brasileiro, transformando a forma como pessoas, empresas e governos realizam pagamentos e transferências em todo o país.












