Quase um quarto do eleitorado brasileiro tem 60 anos ou mais. Milhões de pessoas nessa faixa etária trabalham, empreendem e respondem pelo sustento de famílias. Esse retrato contrasta com a ideia de que envelhecer equivale a desaparecer da vida social.
Fala-se com frequência da “invisibilidade do idoso”. A expressão descreve situações reais de exclusão, discriminação por idade e falta de reconhecimento. Mas não significa ausência. Os brasileiros com 60 anos ou mais estão presentes nas urnas, no mercado de trabalho, no comércio e no cotidiano das famílias — inclusive em funções que nem sempre são percebidas como trabalho ou contribuição econômica.
Nas urnas, um eleitorado em expansão
As eleições presidenciais de 2026 evidenciaram o envelhecimento do eleitorado. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 37.457.537 pessoas com 60 anos ou mais estavam aptas a votar — 23,60% do total. Em 2022, eram 32.891.438, equivalentes a 21,02%. Em apenas quatro anos, o grupo cresceu em 4.566.099 eleitores.
No segundo turno de 25 de outubro de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito com 64.256.232 votos (51,79% dos válidos); Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 59.826.041 votos (48,21%), segundo o TSE.
O tamanho do eleitorado 60+ ajuda a dimensionar sua presença no processo político. Não permite, entretanto, atribuir a reeleição a uma faixa etária específica: os resultados oficiais não identificam a idade de cada pessoa que votou em determinado candidato. O grupo também não é homogêneo em opiniões e preferências políticas.
Para quem envelhece, cidadania continua significando participação em decisões coletivas e acesso a direitos. Saúde, previdência, mobilidade, segurança, moradia e custo de vida são temas que atravessam diferentes gerações e fazem parte do debate público.
A economia também tem cabelos brancos

Os 60+ também não podem ser reduzidos à condição de aposentados fora da atividade econômica. Levantamento da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, com base na PNAD Contínua do IBGE, aponta que 8,5 milhões de pessoas com 60 anos ou mais estavam ocupadas em 2025. Desse universo, cerca de 4,3 milhões eram empreendedoras.
Pequenos comerciantes, profissionais autônomos, prestadores de serviços e trabalhadores de diversas áreas seguem produzindo e circulando renda. O Sebrae também identificou crescimento de longo prazo no empreendedorismo sênior.
Isso não significa que todos tenham condições econômicas confortáveis. O mesmo levantamento da Nexus informa que 72% dos empreendedores 60+ atuavam sem CNPJ em 2025, um indicador das dificuldades de formalização. A permanência no trabalho pode resultar tanto de preferência pessoal quanto de necessidade financeira.
Além de produzir, pessoas idosas consomem, contratam serviços, pagam contas, realizam compras e ajudam a movimentar economias locais. Seu papel não termina quando a vida profissional formal se encerra.
Dentro de casa, uma presença essencial

A presença dos mais velhos nas famílias também pode ser medida. Segundo a Nexus, pessoas com 60 anos ou mais são responsáveis por 21,6 milhões de domicílios brasileiros, cerca de 32% do total.
Em muitos lares, aposentadorias, pensões e rendimentos do trabalho participam da manutenção da casa e da ajuda a outras gerações. Há ainda um papel que não aparece diretamente nas contas: o cuidado.
Dados da PNAD Contínua, divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, mostram que pessoas idosas dedicavam, em média, 19 horas semanais a atividades domésticas e de cuidados não remuneradas em 2022, diante de 16,6 horas entre não idosos. A carga era especialmente elevada para mulheres idosas.
A pessoa idosa pode precisar de apoio e, ao mesmo tempo, oferecer apoio. Pode cuidar de netos, acompanhar familiares em tratamentos, organizar a casa e contribuir para despesas compartilhadas. Essas diferentes situações demonstram por que a velhice não cabe em uma representação única de dependência.
Por que, então, tanta invisibilidade?
Os indicadores de participação política, econômica e familiar não eliminam o etarismo — a discriminação associada à idade. Uma pessoa pode ser responsável pelo orçamento da casa e, ainda assim, não ser ouvida nas decisões familiares. Pode continuar trabalhando e enfrentar preconceitos em processos seletivos. Pode oferecer cuidado durante anos sem reconhecimento.
Também é preciso considerar a diversidade da população 60+: pessoas com autonomia plena convivem com outras que necessitam de assistência cotidiana. Existem diferenças de renda, gênero, raça, território e condições de saúde. Não se trata de idealizar a velhice nem de medir o valor humano pela produtividade.
O Censo de 2022 registrou 32,1 milhões de moradores com 60 anos ou mais, equivalentes a 15,8% da população. À medida que o Brasil envelhece, sua composição demográfica torna mais visíveis desafios antigos de inclusão e cuidado.
A invisibilidade não é ausência
Os dados revelam uma população que participa da vida nacional de formas variadas: vota, trabalha, empreende, sustenta domicílios e oferece cuidados. Ao mesmo tempo, muitas pessoas idosas enfrentam isolamento, sobrecarga, dificuldades financeiras ou barreiras para exercer plenamente seus direitos.
A invisibilidade social não é ausência de participação. É a distância entre a presença concreta das pessoas mais velhas e o reconhecimento que recebem. Entender essa diferença é parte fundamental de compreender o Brasil que envelhece.
Fontes e referências
- TSE — Perfil do eleitorado das eleições de 2026
- TSE — Resultado oficial do segundo turno de 2026
- Nexus / PNAD Contínua — Geração 60+ e arranjos familiares
- Sebrae — Empreendedorismo sênior
- MDS — Envelhecimento e trabalho de cuidado
- IBGE — Censo Demográfico 2022: pessoas de 60 anos ou mais


