China aposta na “economia prateada” para enfrentar envelhecimento da população

Spread the love

 

Governo vê no consumo da terceira idade uma nova força para impulsionar o crescimento econômico e transformar a estrutura produtiva do país

 

A rápida transição demográfica da China está levando o governo a investir cada vez mais no desenvolvimento da chamada “economia prateada”, um conjunto de atividades econômicas voltadas à população idosa. O tema ganhou destaque no Relatório de Trabalho do Governo apresentado durante as chamadas “Duas Sessões”, as reuniões anuais do Legislativo e da Conferência Consultiva Política do país.

A avaliação foi apresentada pela jornalista Guo Keyu, da CGTN, que acompanha há anos o setor de cuidados com idosos e o crescimento do mercado voltado à terceira idade. Segundo a análise, o envelhecimento populacional deixou de ser tratado apenas como um desafio social e passou a ser encarado como uma oportunidade econômica capaz de estimular o consumo interno e promover mudanças estruturais na economia chinesa.

Estimular a demanda doméstica é um dos pilares da estratégia econômica do país. Com o avanço do envelhecimento da população, os idosos passam a desempenhar um papel cada vez mais relevante nesse processo. A questão central, segundo especialistas, já não é se a economia prateada vai crescer — ela já está em expansão —, mas se conseguirá evoluir de forma a garantir desenvolvimento de alta qualidade, com inovação, segurança e participação ativa dos próprios idosos.

De cuidadores a consumidores ativos

O debate também levanta uma questão fundamental: o que significa, na prática, incentivar os idosos a consumir?

Durante décadas, a imagem predominante do idoso na sociedade chinesa era a de um cuidador dedicado, que utiliza grande parte do tempo e dos recursos da aposentadoria para apoiar filhos e netos. Agora, as políticas públicas começam a incentivar uma nova visão: a de idosos como consumidores ativos e participantes de um mercado em expansão.

A China vive uma das transformações demográficas mais rápidas do mundo. Embora a chamada indústria prateada seja discutida há anos, 2026 é visto por analistas como um ponto de virada. O país começa a migrar de um modelo centrado na sobrevivência — focado em cuidados básicos — para outro orientado à qualidade de vida.

Mercado bilionário em expansão

A evolução das políticas voltadas à população idosa revela uma mudança estratégica do governo. O que começou como um sistema de proteção social está se transformando gradualmente em um motor econômico.

Um relatório divulgado em 2025 pelo Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação estimou que o mercado da economia prateada já movimenta 15,8 trilhões de yuans, cerca de 2,2 trilhões de dólares. O valor supera o Produto Interno Bruto de diversos países europeus de porte médio.

Se a tendência continuar, o chamado “dividendo cinza” poderá se tornar um dos principais impulsionadores da economia chinesa nas próximas décadas. Projeções indicam que, até 2050 — quando o consumo poderá representar cerca de 70% do PIB da China — a economia prateada poderá responder por mais de 23% da atividade econômica nacional.

Esse cálculo inclui não apenas gastos com saúde e assistência, mas também impactos indiretos gerados pela maior participação social, cultural e profissional da população idosa.

Novos estilos de vida na terceira idade

Nos primeiros estágios do setor, a maioria dos produtos e serviços voltados aos idosos estava relacionada a necessidades básicas, como equipamentos médicos, dispositivos de mobilidade e instituições de cuidado.

Hoje, no entanto, uma nova geração de aposentados apresenta aspirações diferentes.

Na cidade de Guangzhou, no sul da China, clubes voltados para idosos se tornaram cada vez mais populares. Esses espaços oferecem atividades que vão além do lazer tradicional, incluindo clubes de leitura, aulas de dança, excursões culturais e cursos de alfabetização digital, com introdução inclusive a ferramentas de inteligência artificial.

Para muitos participantes, essas iniciativas funcionam como uma espécie de “segunda carreira”, transformando idosos de receptores passivos de cuidados em participantes ativos da economia criativa.

Nas plataformas digitais, criadores de conteúdo idosos já acumulam milhões de seguidores. Alguns se tornaram influenciadores em áreas como moda, beleza e cultura, incluindo apresentações e desfiles de cheongsam (qipao), traje tradicional chinês.

Desafio: crescimento com qualidade

Até agosto de 2025, o número de empresas ligadas ao setor de envelhecimento na China já se aproximava de 600 mil. O segmento começa a deixar de ser apenas um conjunto de serviços para idosos e passa a se consolidar como uma economia impulsionada por eles.

Com o crescimento acelerado do setor, no entanto, surge um desafio importante: garantir que essa expansão ocorra com qualidade, sustentabilidade e confiança do público.

Sem regulamentação eficaz e padrões claros de qualidade, analistas alertam que o rápido crescimento do setor poderia gerar distorções ou até uma bolha econômica.

Ainda assim, o governo chinês aposta que, se bem conduzida, a economia prateada poderá se tornar um dos pilares do crescimento do país nas próximas décadas, transformando o envelhecimento da população de um problema social em uma nova oportunidade econômica.

About Author