Relatório internacional aponta avanço das plataformas digitais, crescimento dos vídeos, influência de criadores de conteúdo e expansão da inteligência artificial no acesso à informação
O modo como as pessoas consomem notícias está passando por uma transformação profunda e sem precedentes. As redes sociais, plataformas de vídeo e aplicativos de mensagens tornaram-se, pela primeira vez, a principal fonte de acesso à informação em escala global, superando os sites e aplicativos dos veículos jornalísticos tradicionais.
A constatação faz parte do Digital News Report 2026, estudo anual elaborado pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, considerado uma das mais importantes pesquisas sobre hábitos de consumo de notícias no mundo. O levantamento ouviu quase 100 mil pessoas em 48 países e revela um cenário marcado por mudanças tecnológicas aceleradas, novas formas de distribuição de conteúdo e desafios crescentes para o jornalismo profissional.
Segundo o relatório, mais da metade dos entrevistados afirma acessar notícias principalmente por meio de redes sociais, plataformas de vídeo e aplicativos de mensagens. O resultado evidencia uma mudança histórica na forma como a população se informa, já que os conteúdos jornalísticos são encontrados cada vez mais durante a navegação em ambientes digitais, muitas vezes por indicação de algoritmos.
Esse fenômeno reduz a relação direta entre leitores e veículos de comunicação, alterando a dinâmica tradicional de consumo de notícias. Nos últimos anos, o acesso direto aos portais jornalísticos apresentou queda significativa, enquanto aplicativos como WhatsApp, Instagram e YouTube ampliaram sua relevância como canais de distribuição de informação.
Vídeos lideram o consumo de informação
O estudo mostra ainda que o vídeo se consolidou como o formato preferido para o acompanhamento de notícias. Mais de três quartos da população dos países pesquisados assistem regularmente a conteúdos jornalísticos em vídeo pela internet.
O YouTube aparece como a principal plataforma para esse tipo de consumo, seguido por redes como Instagram e TikTok. Em grande parte dos mercados analisados, a audiência de notícias online em vídeo já supera a da televisão aberta e por assinatura.
O crescimento das smart TVs também contribui para essa mudança, permitindo que os usuários assistam a conteúdos sob demanda diretamente por aplicativos instalados nos aparelhos.
Influenciadores ampliam presença no debate público
Outro destaque do levantamento é o fortalecimento dos criadores de conteúdo especializados em informação e análise de acontecimentos.
Esses comunicadores conquistam espaço ao oferecer linguagem mais acessível, formatos dinâmicos e maior proximidade com o público. Embora muitos usuários reconheçam que os influenciadores podem apresentar visões menos imparciais do que os veículos jornalísticos tradicionais, sua capacidade de engajamento tem ampliado significativamente sua audiência.
Em diversos países, esses produtores de conteúdo já ocupam posição relevante no debate público, especialmente entre os jovens.

Inteligência artificial ganha espaço
A inteligência artificial também começa a desempenhar papel cada vez mais importante na forma como as pessoas acompanham o noticiário.
Ferramentas como chatbots e assistentes virtuais passaram a ser utilizadas para buscar explicações, contextualizar acontecimentos e responder dúvidas sobre temas complexos. Entre os usuários mais jovens, a adoção dessas tecnologias ocorre em ritmo ainda mais acelerado.
Especialistas alertam, porém, que a expansão da IA pode gerar impactos econômicos relevantes para os veículos de comunicação. Com respostas sendo fornecidas diretamente por plataformas de inteligência artificial e mecanismos de busca, há o risco de redução no fluxo de visitantes para os sites jornalísticos.
Confiança na imprensa permanece em queda
Apesar do aumento do consumo de notícias digitais, a confiança do público na informação segue em declínio em diversas regiões do planeta.
O relatório aponta que os índices globais de credibilidade da imprensa continuam recuando, influenciados por fatores como polarização política, excesso de informações, desinformação e fadiga provocada pelo noticiário constante.
Também cresce o número de pessoas que afirmam evitar notícias com frequência, seja por cansaço emocional, seja pela percepção de que o conteúdo é excessivamente negativo.
Brasil acompanha transformação global
O Brasil aparece entre os países mais impactados pelas mudanças identificadas pelo estudo.
As redes sociais já se consolidaram como uma das principais portas de entrada para o consumo de notícias, com destaque para Instagram, WhatsApp e YouTube. O país também figura entre os líderes mundiais na utilização de ferramentas de inteligência artificial para acompanhar e compreender acontecimentos.
Ao mesmo tempo, o mercado brasileiro enfrenta desafios semelhantes aos observados internacionalmente, incluindo a queda da confiança na imprensa, a redução do número de assinantes de notícias digitais e o fortalecimento de influenciadores políticos e criadores de conteúdo independentes.
Para os pesquisadores, o cenário indica que o jornalismo vive uma nova etapa de sua história. Plataformas digitais, inteligência artificial e produtores de conteúdo deixaram de atuar apenas como canais complementares e passaram a disputar diretamente a atenção, a confiança e o tempo do público em um ambiente cada vez mais fragmentado e competitivo.













