Segunda fase da Operação Lívia cumpriu medidas judiciais no DF e em quatro estados; investigação apura aliciamento, ameaças e incentivo à automutilação em comunidades virtuais
Uma operação coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública cumpriu medidas judiciais no Distrito Federal e em quatro estados contra uma rede virtual suspeita de manipular e coagir crianças e adolescentes. A ação ocorreu nesta terça-feira (15) e teve como alvos seis adolescentes investigados por administrar ou participar de comunidades fechadas na internet.
A segunda fase da Operação Lívia foi conduzida pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, com o apoio do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), ligado ao Ministério da Justiça. As medidas foram executadas no Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Rio Grande do Sul.
Segundo as autoridades, foram cumpridas 12 medidas judiciais, entre buscas, apreensões e medidas cautelares. Como os investigados são adolescentes, suas identidades e outros dados pessoais são preservados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.
Rede teria explorado jovens vulneráveis
As investigações apontam que os grupos procuravam principalmente crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade emocional. Os suspeitos se aproximariam das vítimas por meio de perfis falsos e, depois de conquistar sua confiança, passariam a obter informações sobre familiares, escola e rotina.
Esses dados seriam usados para intimidar e controlar as vítimas. A polícia investiga relatos de ameaças, incentivo à automutilação, discursos de ódio e práticas de crueldade contra animais.
De acordo com os investigadores, algumas vítimas eram submetidas ao que foi denominado “escravidão digital”: uma forma de controle psicológico em que adolescentes recebiam ordens e eram ameaçados caso se recusassem a cumpri-las.
Investigação começou após morte de adolescente
A Operação Lívia foi iniciada depois da morte de uma adolescente de 13 anos, ocorrida em julho, em Naviraí, no Mato Grosso do Sul. Segundo a investigação, a jovem teria sido pressionada por integrantes de um grupo virtual durante uma transmissão ao vivo.
O episódio levou as autoridades a analisar celulares, computadores, perfis e comunidades digitais. O material recolhido na primeira fase permitiu identificar novos suspeitos e possíveis vítimas em diferentes regiões do país.
Na etapa inicial da operação, realizada em agosto, um adulto foi preso e cinco adolescentes foram apreendidos. Entre eles estava um jovem de 14 anos apontado pela polícia como possível administrador da comunidade investigada.
A participação individual de cada alvo ainda está sendo apurada. As medidas judiciais não representam condenação, e os adolescentes têm direito à defesa durante o procedimento.
Autoridades buscam outras possíveis vítimas
Além de reunir provas sobre os investigados, a polícia trabalha para localizar outras crianças e adolescentes que possam ter sido coagidos pela rede. O objetivo é encaminhá-los aos serviços de saúde e à rede de proteção social.
O caso também provocou discussões sobre a responsabilidade das plataformas digitais na proteção de menores. As transmissões ao vivo do Discord foram suspensas temporariamente no Brasil por determinação da Agência Nacional de Proteção de Dados. A plataforma afirma que colabora com as autoridades e mantém mecanismos destinados à segurança dos usuários.
Pais devem observar mudanças de comportamento
Familiares e responsáveis devem ficar atentos a mudanças repentinas de comportamento, isolamento, medo de usar ou abandonar o celular, uso secreto das redes sociais, contato frequente com desconhecidos e sinais de ameaças ou chantagem.
A recomendação é conversar sem julgamentos, preservar mensagens e perfis suspeitos e não confrontar diretamente os possíveis agressores. Casos envolvendo exploração ou violência contra crianças podem ser denunciados pelo Disque 100, pelo 190, em situações de emergência, ou à delegacia mais próxima.
Quem estiver enfrentando sofrimento emocional pode procurar gratuitamente o Centro de Valorização da Vida pelo telefone 188, disponível 24 horas. Crianças e adolescentes também podem ser encaminhados a uma unidade de saúde ou ao Conselho Tutelar.
Com informações do Ministério da Justiça e Segurança Pública e da Folha de S.Paulo.


