Especialistas avaliam que dificuldades nas exportações podem aumentar oferta interna e reduzir pressão inflacionária no curto prazo
Para economista do Morgan Stanley, dificuldade de exportações pode ampliar oferta interna; Selic pode cair para 12% até o fim de 2026
O atual cenário geopolítico pode trazer um efeito inesperado para a economia brasileira no curto prazo: aliviar a pressão sobre os preços dos alimentos. A avaliação é da economista-chefe do Morgan Stanley para o Brasil, Ana Madeira, que analisou os impactos do conflito no Oriente Médio sobre a inflação e a política monetária do País.
Segundo a economista, as dificuldades logísticas para exportação de carnes brasileiras para o Oriente Médio tendem a aumentar a oferta desses produtos no mercado interno. Cerca de 30% das exportações de frango do Brasil são destinadas à região e passam pelo Estreito de Ormuz, área diretamente afetada pelas tensões geopolíticas. Além disso, aproximadamente 15% de outras proteínas também dependem dessa rota.
Com possíveis entraves no transporte e armazenamento, parte dessa produção pode acabar sendo direcionada ao mercado doméstico. Como os alimentos representam mais de 20% da cesta que compõe o IPCA, a maior oferta poderia provocar um efeito desinflacionário temporário no País.
Apesar desse possível alívio no curto prazo, Ana Madeira destaca que, no médio prazo, o conflito tende a pressionar a inflação. Isso ocorre principalmente por causa do aumento no preço do petróleo. Como cerca de 60% da distribuição de mercadorias no Brasil é feita por transporte rodoviário, o diesel mais caro eleva os custos de produção e logística, gerando impacto indireto nos preços ao consumidor.
Em relação à política monetária, a economista avalia que o corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic pelo Comitê de Política Monetária (Copom) foi uma decisão cautelosa diante do cenário internacional mais volátil. Inicialmente, a expectativa do banco era de reduções de 0,50 ponto percentual desde o início do ciclo, mas o ambiente de maior incerteza levou a uma revisão nas projeções.
Agora, a previsão é que o Banco Central realize mais um corte de 0,25 ponto na reunião de abril e, a partir de junho, acelere o ritmo de redução para 0,50 ponto percentual por reunião. Com isso, a taxa básica de juros poderia chegar a 12% ao final de 2026, abaixo da projeção média do mercado apontada pelo boletim Focus, que indica 12,25%.
A economista também ressalta que o Banco Central deve manter cautela ao longo do ciclo de afrouxamento monetário, especialmente diante das incertezas externas e das expectativas de inflação. Caso essas projeções voltem a subir, o espaço para cortes mais rápidos pode diminuir.
A projeção do Morgan Stanley é que a inflação medida pelo IPCA termine o ano em 3,9%, próxima do centro da meta. Ainda assim, fatores como o risco fiscal, o cenário eleitoral e o comportamento do preço do petróleo continuam sendo elementos importantes para a condução da política monetária.
No cenário de atividade econômica, o banco projeta crescimento de cerca de 2% para a economia brasileira neste ano, com desaceleração moderada e ainda com juros em nível considerado contracionista.
Para Ana Madeira, o Brasil permanece relativamente bem posicionado entre as economias emergentes neste momento. A combinação de juros elevados, inflação em trajetória controlada e menor volatilidade cambial tende a continuar atraindo investidores estrangeiros, ainda que o ambiente global permaneça marcado por incertezas.













