Israel usou armas térmicas dos EUA em Gaza que fizeram palestinos evaporarem

Spread the love

Investigação da Al Jazeera aponta uso de bombas termobáricas que causaram o desaparecimento de milhares na Faixa de Gaza

Conteúdo postado por:

247 – Ao amanhecer de 10 de agosto de 2024, Yasmin Mahani caminhava entre os escombros ainda fumegantes da escola al-Tabin, na Cidade de Gaza, em busca do filho, Saad. Encontrou o marido em desespero, mas não havia qualquer sinal do menino. Dentro de uma mesquita próxima, deparou-se apenas com vestígios humanos espalhados pelo chão. “Entrei na mesquita e me deparei com carne e sangue”, relatou.A história foi revelada em uma investigação exibida pela Al Jazeera intitulada “O Resto da História”. Segundo a reportagem, Mahani é uma entre milhares de palestinos que afirmam ter visto parentes desaparecerem sem deixar corpos para sepultamento ao longo do genocídio perpetrado por Israel em Gaza, que já provocou mais de 72 mil mortes.

Mahani contou que passou dias percorrendo hospitais e necrotérios. “Não encontramos nada de Saad. Nem mesmo um corpo para enterrar. Essa foi a parte mais difícil”, declarou.

Quase 3 mil desaparecidos documentados

De acordo com a investigação, equipes da Defesa Civil de Gaza registraram o desaparecimento de 2.842 palestinos desde o início da guerra, em outubro de 2023. Em muitos casos, não restaram corpos identificáveis, apenas respingos de sangue ou pequenos fragmentos de tecido humano.

O porta-voz da Defesa Civil, Mahmoud Basal, explicou à emissora que os socorristas utilizam um método de verificação nos locais atingidos. “We enter a targeted home and cross-reference the known number of occupants with the bodies recovered”, afirmou.

Segundo especialistas ouvidos pela investigação, o fenômeno estaria associado ao uso sistemático de armas térmicas e termobáricas, conhecidas como bombas de vácuo ou de aerossol, capazes de gerar temperaturas superiores a 3.500 graus Celsius.

Como funcionam as armas termobáricas

O especialista militar russo Vasily Fatigarov explicou que esse tipo de armamento opera de forma distinta das explosões convencionais. Em vez de apenas detonar, dispersa uma nuvem de combustível que se inflama, produzindo uma gigantesca bola de fogo e um efeito de vácuo.

“Para prolongar o tempo de queima, pós de alumínio, magnésio e titânio são adicionados à mistura química”, disse Fatigarov. “This raises the temperature of the explosion to between 2,500 and 3,000 degrees Celsius”.

O diretor-geral do Ministério da Saúde palestino em Gaza, Dr. Munir al-Bursh, descreveu o impacto biológico dessas temperaturas extremas sobre o corpo humano.“O ponto de ebulição da água é 100 graus Celsius”, afirmou. “Quando um corpo é exposto a energia superior a 3.000 graus, combinada com pressão massiva e oxidação, os fluidos entram em ebulição instantaneamente. Os tecidos vaporizam e se transformam em cinzas. É quimicamente inevitável.”

Munições identificadas na investigação

A reportagem cita modelos específicos de armamentos de fabricação norte-americana supostamente utilizados em Gaza:

  • MK-84 ‘Hammer’: bomba não guiada de 900 quilos com tritonal, capaz de atingir temperaturas de até 3.500°C
  • BLU-109: bomba de penetração com fusível retardado e explosivo PBXN-109, usada em ataque na área de al-Mawasi, declarada por Israel como “zona segura”; segundo a investigação, 22 pessoas teriam sido evaporadas nessa ofensiva
  • GBU-39: bomba de precisão utilizada no ataque à escola al-Tabin, equipada com explosivo AFX-757

Sobre a GBU-39, Fatigarov afirmou: “A GBU-39 foi projetada para manter a estrutura do edifício relativamente intacta enquanto destrói tudo em seu interior. Ela mata por meio de uma onda de pressão que rompe os pulmões e de uma onda térmica que incinera os tecidos moles.”

Acusações de cumplicidade internacional

Especialistas em direito internacional também comentaram o caso. A advogada Diana Buttu, professora da Universidade de Georgetown no Catar, afirmou que a responsabilidade não se limitaria a Israel.

“Isto é um genocídio global, não apenas um israelense”, declarou. Segundo ela, a cadeia de fornecimento de armas evidencia cumplicidade internacional. “Vemos um fluxo contínuo dessas armas vindas dos Estados Unidos e da Europa. Eles sabem que essas armas não distinguem entre um combatente e uma criança, e mesmo assim continuam a enviá-las.”

Buttu destacou que o uso de armas incapazes de distinguir entre combatentes e civis configura crime de guerra. “The world knows Israel possesses and uses these prohibited weapons. The question is why are they allowed to remain outside the system of accountability”.

Justiça internacional sob questionamento

A investigação relembra que a Corte Internacional de Justiça determinou, em janeiro de 2024, medidas provisórias ordenando que Israel prevenisse atos de genocídio. Em novembro do mesmo ano, o Tribunal Penal Internacional emitiu mandado de prisão contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Ainda assim, segundo a reportagem, a ofensiva se intensificou.

O professor de direito internacional Tariq Shandab avaliou que o sistema de justiça global “Falhou no teste de Gaza”. Ele afirmou que, desde o acordo de cessar-fogo em outubro, “more than 600 Palestinians have been killed”.

Shandab também declarou: “O bloqueio a medicamentos e alimentos é, por si só, um crime contra a humanidade”,  acrescentando que o poder de veto dos Estados Unidos no Conselho de Segurança da ONU tem garantido a impunidade a Israel. Ele observou que tribunais com jurisdição universal, como os da Alemanha e da França, poderiam representar uma alternativa, caso haja vontade política.

Para famílias atingidas, no entanto, as discussões jurídicas têm pouco significado diante da perda irreparável. Rafiq Badran, que perdeu quatro filhos no campo de refugiados de Bureij, relatou que conseguiu recuperar apenas pequenos fragmentos dos corpos. “Quatro dos meus filhos simplesmente evaporaram”, disse, emocionado. “Procurei por eles um milhão de vezes. Não restou nenhum pedaço. Para onde eles foram?”

About Author