Da retórica de poder aos crimes mais brutais, a banalização da violência corrói valores, silencia indignações e ameaça a própria ideia de humanidade.
A violência deixou de chocar. Essa é talvez a constatação mais perturbadora do nosso tempo. O que antes causava espanto hoje é consumido como mais uma notícia, mais um vídeo, mais uma estatística. Quando a brutalidade passa a ser tratada como algo comum, perde-se não apenas a sensibilidade coletiva, mas também a capacidade de reagir com firmeza e responsabilidade.
Essa banalização começa no discurso. Quando líderes políticos, como Donald Trump, Jair Bolsonaro, Benjamin Netanyahu entre outros, fazem uso constante de linguagem agressiva, ameaçadora e desumanizante, eles não apenas expressam opiniões: eles legitimam comportamentos. A violência simbólica, verbal e institucional abre caminho para a violência física, criando um ambiente em que o ódio se sente autorizado a agir.
O problema se agrava quando esse tipo de postura vem de figuras com enorme poder e visibilidade. O que deveria ser exemplo de civilidade se transforma em espetáculo de intolerância. A mensagem é clara e perigosa: atacar, humilhar e excluir passa a ser aceitável, desde que se esteja do “lado certo” do poder.
No outro extremo, mas ligado pela mesma lógica de desprezo à vida, estão os feminicídios. Mulheres seguem sendo assassinadas simplesmente por serem mulheres, muitas vezes após históricos de ameaças ignoradas e violências naturalizadas. Cada caso tratado como “mais um” reforça a ideia de que a vida feminina vale menos.
Ainda mais revoltante é a recorrência de infanticídios. Crianças, símbolos máximos de vulnerabilidade, têm suas vidas interrompidas de forma cruel, enquanto a sociedade reage com choque momentâneo e rápido esquecimento. A indignação dura pouco, e logo cede espaço à indiferença cotidiana.
A mídia, as redes sociais e até instituições contribuem para esse processo ao transformar a violência em produto. Manchetes sensacionalistas, vídeos repetidos à exaustão e comentários vazios esvaziam o sentido da tragédia. O excesso de exposição não gera empatia; gera anestesia.
Normalizar a violência é um ato político, ainda que disfarçado de apatia. Quando não reagimos, quando relativizamos discursos agressivos ou minimizamos crimes brutais, estamos escolhendo o lado da omissão. E a omissão também mata, ainda que de forma silenciosa.
Romper com essa banalização exige indignação ativa. Exige nomear a violência, responsabilizar agressores, questionar líderes e recusar o conforto da indiferença. Enquanto aceitarmos o inaceitável, seguiremos presos a um ciclo de brutalidade que se alimenta justamente do nosso silêncio.
As consequências sociais dessa violência banalizada são profundas e corrosivas. Quando a agressividade se torna linguagem comum, as relações humanas passam a ser mediadas pelo medo e pela desconfiança. As pessoas se fecham, evitam o diálogo e passam a enxergar o outro como ameaça potencial, não como alguém com quem é possível conviver ou construir algo coletivo.
Esse ambiente afeta diretamente o tecido social. Comunidades se fragmentam, laços de solidariedade enfraquecem e a empatia se torna rara. A indiferença diante da dor alheia cria uma sociedade mais fria, onde o sofrimento do outro só importa quando atravessa a própria porta. É o terreno perfeito para o avanço do autoritarismo e da exclusão.
No plano individual, os impactos mentais são devastadores. A exposição constante à violência — seja por discursos de ódio, notícias de crimes ou ameaças veladas — gera ansiedade crônica, sensação de insegurança permanente e medo difuso. Vive-se em estado de alerta, como se o perigo estivesse sempre à espreita.
Muitas pessoas desenvolvem um processo de dessensibilização emocional como mecanismo de defesa. Para não sofrer, deixam de sentir. Mas esse entorpecimento cobra um preço alto: apatia, dificuldade de se conectar afetivamente e perda do sentido de indignação diante do injusto. A violência, então, vence duas vezes, quando acontece e quando deixa de provocar reação.
Crianças e adolescentes, em especial, crescem absorvendo esse cenário como algo “normal”. O resultado é uma geração mais exposta a traumas, com dificuldades de lidar com conflitos de forma saudável. Quando a agressão vira referência, o diálogo perde espaço, e a reprodução da violência se torna quase inevitável.
Ao final, a banalização da violência adoece a sociedade inteira. Ela mina a saúde mental coletiva, enfraquece a democracia e compromete qualquer projeto de futuro baseado em dignidade e respeito. Ignorar essas consequências é aceitar um mundo mais cruel, desigual e emocionalmente adoecido , e isso, por si só, já deveria ser motivo suficiente para revolta.













