Do “Gigante acordou” ao cansaço coletivo

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Como a crise política permanente corroeu a saúde mental e o tecido emocional do Brasil desde 2013

 

Desde junho de 2013, quando milhões de brasileiros tomaram as ruas sob o grito de “não é pelos 20 centavos”, algo profundo e silencioso começou a se romper no país. O que parecia ser um despertar cívico transformou-se, ao longo dos anos, em um processo contínuo de desgaste emocional, polarização extrema e adoecimento coletivo. A saúde mental do brasileiro, antes resiliente e marcada pela informalidade afetiva, entrou em colapso.

Aquele Brasil reconhecido internacionalmente pelo sorriso fácil, pela hospitalidade espontânea e pela alegria cotidiana parece ter ficado para trás. O “brasileiro cordial” deu lugar a um cidadão em permanente estado de alerta, desconfiado, irritadiço e emocionalmente exausto. A empatia perdeu espaço para o confronto, e o diálogo foi substituído pelo ataque direto, sobretudo nas redes sociais e nos ambientes familiares.

A partir de 2013, a política deixou de ser apenas um campo de divergência de ideias e passou a ocupar o centro das identidades pessoais. Discordar tornou-se sinônimo de traição. Pensar diferente passou a ser interpretado como ameaça. O país se dividiu em campos antagônicos, nos quais não há espaço para nuance, escuta ou complexidade.

Nesse cenário, crenças absolutas ganharam força. Ideias simplificadoras e, muitas vezes, desconectadas da realidade passaram a orientar discursos inflamados: o medo constante do “comunismo”, teorias conspiratórias como a negação científica, a idealização irrestrita de potências estrangeiras e a demonização sistemática do outro. A racionalidade foi substituída pela fé política cega.

O impacto psicológico desse ambiente é devastador. Estudos e relatos de profissionais da saúde mental apontam crescimento significativo de ansiedade, depressão, transtornos de estresse e sensação crônica de desesperança. O brasileiro vive sob tensão permanente, como se estivesse sempre à beira de um conflito iminente.

Mais grave ainda é a normalização da violência simbólica — e, em alguns casos, física. Expressões como “eliminar o outro”, “calar”, “aniquilar” passaram a integrar o vocabulário cotidiano do debate público. A ideia de convivência democrática foi enfraquecida, substituída por uma lógica de guerra cultural contínua.

O resultado é um país emocionalmente fragmentado. Famílias rompidas, amizades desfeitas, comunidades divididas. O Brasil segue existindo como território, mas sua alma coletiva parece adoecida, cansada e ferida. A reconstrução não será apenas política ou econômica — será, antes de tudo, emocional e humana.

Enquanto não houver espaço para o dissenso saudável, para a escuta e para o reconhecimento da diversidade de pensamento, o país seguirá pagando um preço alto: o da perda de si mesmo.

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