Wagner França
A Venezuela, país historicamente marcado pela luta anti-imperialista e pela defesa de sua soberania, enfrenta uma nova e perigosa escalada de agressões por parte dos Estados Unidos. Sob o governo de Donald Trump, a estratégia imperialista adquiriu contornos mais brutais e explícitos, abandonando pretensões hipócritas de “promoção da democracia” para adotar uma política de força militar direta e coerção econômica. A Venezuela, detentora das maiores reservas de petróleo do mundo, sempre esteve no centro das atenções do imperialismo norte-americano. Desde a Revolução Bolivariana, iniciada por Hugo Chávez, o país tem resistido às tentativas de dominação, buscando construir um projeto de soberania nacional e justiça social.
A partir de 2014, com a intensificação das sanções econômicas e o apoio a grupos oposicionistas, os EUA iniciaram uma guerra híbrida contra a Venezuela, combinando desestabilização política, guerra econômica e propaganda midiática. A eleição de Nicolás Maduro em 2013 e sua reeleição em 2024 foram seguidas por negativas de reconhecimento por parte dos EUA e da União Europeia, que passaram a apoiar abertamente figuras como Juan Guaidó e María Corina Machado, em uma tentativa de impor um governo fantoche. A justificativa inicial era a “defesa da democracia”, mas a motivação real sempre foi o controle do petróleo e dos recursos naturais venezuelanos.
A novidade na investida atual reside na abandonagem de qualquer fachada legal ou diplomática. Em agosto de 2025, o governo Trump autorizou o envio de uma frota naval para as proximidades da Venezuela, incluindo destróieres, submarinos de ataque e mais de 4.000 fuzileiros navais. Essa mobilização militar foi acompanhada por uma retórica belicista, com a Casa Branca classificando o governo Maduro como um “cartel narcoterrorista” e oferecendo uma recompensa de US$ 50 milhões por sua captura. Diferente de intervenções anteriores, que usavam proxies ou operações encobertas, agora há um deslocamento aberto de tropas e equipamentos militares, reminiscente de operações de guerra convencional. A acusação de narcotráfico, sem apresentação de provas, serve como pretexto para justificar ações ilegais perante o direito internacional. O imperialismo busca articular governos de extrema-direita na região, como o de Javier Milei na Argentina, que se alinha explicitamente com Washington e participa de exercícios militares com o Comando Sul dos EUA.
O governo venezuelano respondeu com a mobilização de 4,5 milhões de milicianos bolivarianos e o reforço de suas fronteiras. Maduro denunciou a agressão imperialista, afirmando que “nenhum império virá tocar o solo sagrado da Venezuela”. No entanto, organizações marxistas-leninistas, como o Partido Comunista da Venezuela (PCV), apontam as contradições do governo: enquanto se defende retoricamente do imperialismo, mantém acordos com empresas transnacionais como a Chevron e a Barrick Gold, entregando recursos estratégicos em troca de alívio econômico imediato. A resistência popular, no entanto, é palpable. Milhares de trabalhadores e jovens têm tomado as ruas para defender a soberania nacional, reconhecendo que, apesar das limitações do governo Maduro, a alternativa imposta pelo imperialismo seria ainda mais devastadora.
A escalada contra a Venezuela deve ser entendida no contexto mais amplo da crise do capitalismo global e da reconfiguração geopolítica. Os EUA, em declínio relativo, buscam reafirmar sua hegemonia na América Latina, região que considera seu “quintal”. A teoria do “Eixo do Mal” é agora estendida a países como Brasil e Venezuela, com o Pentágono justificando intervenções sob a alegação de combater “atores malignos” como China e Rússia. A acumulação capitalista requer o controle de recursos e mercados, e a violência imperialista é o meio para alcançá-lo. A investida contra a Venezuela é parte de uma ofensiva coordenada que inclui ameaças ao México, pressões sobre o Brasil e a consolidação de regimes reacionários na região.
Diante dessa ofensiva, a resposta da classe trabalhadora e dos povos das Américas deve ser a unidade e a solidariedade internacionalista. Organizações como o PCV têm historicamente defendido que a luta anti-imperialista deve estar ligada à construção do socialismo-comunismo, superando as limitações do nacionalismo burguês. A chamada “Maré Rosa” (governos de esquerda moderada na América Latina) mostra sua incapacidade de enfrentar o imperialismo. Lula, por exemplo, busca acordos com governos de direita e com o imperialismo europeu, em vez de construir uma frente única de resistência. A única força capaz de deter o avanço imperialista é a mobilização independente da classe trabalhadora, unida além das fronteiras nacionais.
A agressão imperialista contra a Venezuela é um alerta para todos os povos da América Latina. Ela revela a face brutal do capitalismo em crise, disposto a usar a guerra e a violência para manter sua dominação. A resistência venezuelana, enraizada em uma história de lutas anti-imperialistas, inspira-se no legado de Simón Bolívar e na tradição marxista-leninista. A solidariedade internacionalista deve ser concretizada na denúncia das ações dos EUA, na exigência de retirada imediata de suas tropas da região e no apoio às lutas populares que defendem a soberania e avançam em direção a uma transformação socialista. Como afirmou o PCV em seu 90º aniversário: “A história nos pertence”.